Não , não sou Moderno. Sou apenas contemporâneo!

Não , não sou Moderno. Sou apenas contemporâneo!

Há pouco tempo, numa palestra de que me orgulho pela bondade de ter sido convidado afirmei o seguinte;

“Não, não sou um Treinador moderno. Aliás, recuse-me a ser um Treinador moderno”.

Não me disseram, mas a verdade é que pela visão periférica do auditório, senti algum desconforto dos que estavam a disponibilizar o seu tempo na procura de “receitas do futebol moderno”.

Versátil como qualquer Treinador tem de ser, especialmente no “tal futebol moderno, acrescentei após alguns segundos expectantes.

“Calma malta…sejam pelo menos simpáticos comigo. Peço-vos por favor que tentem sentir, “o que eu me divirto, ao aprender convosco, enquanto vos tento ensinar”.

E como por milagre a “visão periférica melhorou”.

E o interesse pereceu-me ter aumentado, quando lhes pedi para poder explicar, porque me recuso/e recusarei sempre, a ser um treinador moderno. E passei claramente a fazer o que muitos dizem gostar, mas que eu pela quantidade de experiências que já vi, eu não gosto.

“Correr riscos”.

E ao dizer que não gosto de ser moderno, porque sou apenas Contemporâneo de Diversas Décadas, Conhecimentos e Metodologias, é seguramente o primeiro passo para ser um Velho Ultrapassado.

Mas se não gosto de correr riscos, porque corri então este? Sendo o Futebol na verdade complexo, totalmente imprevisível , mas mais belo quanto mais simples, é simples também a justificação.

Ser contemporâneo é ser o menos passivo dos indivíduos. É ser quem não se deixa cegar pelas luzes do seu tempo. É quem consegue visualizar com clareza a parte das sombras, essa íntima obscuridade que está sempre presente, assombrando todas as épocas da história.

Ser contemporâneo é também ser “intempestivo”: intempestivo na procura (de formas) de compreender um mal, um inconveniente, um defeito, e também algumas coisas das quais as épocas justamente se orgulham.

 

“Contemporâneo é aquele que tem o olhar fixo no tempo para perceber não a luz, mas as trevas. Todos os tempos são sombrios para quem experimenta a contemporaneidade. Contemporâneo é, precisamente, quem sabe ver essa escuridão e quem é capaz de escrever mergulhando sua caneta na escuridão do presente. ”

Giorgio Agamben.

Filósofo italiano nascido em Roma em 22 de Abril de 1942

 

E vem agora, o que menos agrada a muitos. É que felizmente ser Contemporâneo é também viver os tempos de hoje, é ser actual. É entender e perceber que, o que faço hoje não é mais do que o aperfeiçoamento  do que fiz ontem. O manter-me actualizado é essencial. Podemos até ter uma forma de trabalhar bem definida, mas porém que ela nunca seja limitativa. Houve tempos em que acreditei que a forma física era essencial no futebol. Hoje, a forma física, é apenas um dos recursos (com a mesma importância de então), para alcançar a forma desportiva. Se ontem, o corpo se movia, algumas vezes até sem ideias, hoje, as ideias movem o corpo para que se cumpram as “missões” fundamentais, nas organizações tácticas. E hoje, ser contemporâneo com os diferentes conhecimentos, metodologias e actualizado, torna-nos menos limitados nos métodos de treino, e ajuda qualquer treinador a ter mais recursos para trabalhar, além de uma visão mais alargada do Jogo, que, consequentemente, nos levará a ideias e resultados melhores.

E a referida palestra chegou ao fim, embora de forma diferenciada. Quando entrei estavam sentados, quando saí estavam em pé, aplaudindo o prazer de terem percebido e entendido que o presente e o futuro, não são mais que o aperfeiçoamento do que já foi feito no passado.

Como nos princípios culturais da táctica, recusem a inferioridade e a igualdade numérica e procurem a superioridade. Ser só presente e futuro é começar do zero. Respeitem os vossos estudos, porque eles, olhando bem, são apenas o passado.

E riam muito. É meu sonho mais bonito, poder continuar a rir de mim próprio.

Abraços.

Please follow and like us:

Leave a Reply